Grande Bom Jardim vive em clima de ´guerra silenciosa´
A implantação do programa ´Território da Paz´, no ano passado, não aplacou os índices de assassinatos na região
A violência armada que cresce sem precedentes na Capital cearense e em sua região metropolitana já foi a responsável, este ano, por nada menos, que 1.126 homicídios entre os dias 1º de janeiro e 27 de agosto, contra 886 casos no mesmo período de 2009, o que representa um aumento de homicídios na ordem de 27 por cento. Neste cenário de sangue, tiros e impunidade, o Grande Bom Jardim, considerado pelas autoridades como o ´Território da Paz´, se destaca. Nada menos que 116 crimes de morte já ocorreram ali, segundo levantamentos feito pela Reportagem junto às delegacias daquela área (12º e 32º DPs) e os registros da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), além da entrada dos corpos das vítimas na Coordenadoria de Medicina Legal (CML), da Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce), hoje, abrigada, provisoriamente, na sede do Serviço de Verificação de Óbito (SVO), em Messejana.
Crimes
O Grande Bom Jardim é formado por 47 comunidades, entre bairros, vilas e favelas, sendo subdividido, segundo aponta o planejamento do programa ´Territórios da Paz´, em cinco núcleos: Bom Jardim, Granja Portugal, Siqueira, Granja Lisboa e Canindezinho. Neste território, os 116 homicídios perpetrados este ano, foram assim distribuídos: Bom Jardim (49), Canindezinho (25), Granja Portugal (20), Siqueira (13) e, ainda, na Granja Lisboa (09).
"A maioria desses crimes está ligada diretamente ao tráfico de drogas. Outros assassinatos são motivados por inimizades, casos passionais e aqueles praticados por motivos banais, como em bebedeiras ou mesmo partilha de roubo em marginais que atuam na área. Há também casos de latrocínio, em que cidadãos são mortos no momento em que estão sendo assaltados", contou um policial civil que, até pouco tempo, atuava no combate e apuração de crimes naquele setor da Capital.
Do começo do ano até hoje, são cinco casos de duplos homicídios e um de triplo homicídio.
Foi que aconteceu, por exemplo, na noite de 13 de fevereiro passado, quando criminosos invadiram a comunidade do Planalto Vitória, inserido na área do Canindezinho, e vingaram com o sangue de inocentes a morte de um comparsa.
A execução do assaltante e traficante de drogas José Aurílio Costa da Silva Júnior, o ´Júnior Mirim´, custou caro para os pacatos moradores daquela comunidade. ´Júnior´ foi assassinado às 18h47 na Rua João Correia Lima. Às 23 horas, uma gangue surgiu na Rua João Braz dos Santos e passou a atirar em quem via pela frente.
Vítimas
O resultado do tiroteio foi trágico. Três moradores acabaram mortos. Entre eles estava o líder comunitário Luiz Azevedo Lima. Também foram eliminadas a dona-de-casa Vandeglace Rocha Silva e a menina Neyle Moara da Costa Sena, dois anos. Desde aquele dia, a rotina dos moradores do Planalto Vitória não é mais a mesma. Apesar das constantes operações da Polícia Militar na comunidade, quem reside ali teme novas chacinas. Este sentimento é comum nas demais áreas do Grande Bom Jardim. O ´Território da Paz´ mais parece uma trincheira.
VÍTIMAS
Bandidos desafiam Polícia e continuam a matar
Criminosos desafiam autoridades policiais. Nem as constantes operações nem o Ronda reduzem a violência
A violência armada que cresce no Bom Jardim tornou-se um desafio para as autoridades da Segurança Pública há, pelo menos, três anos. Desde 2008 a comunidade sofre com os altos índices de assassinatos. Nem mesmo com a implantação do programa de policiamento comunitário Ronda do Quarteirão naquele bairro, em novembro de 2008, nem a deflagração do projeto federal ´Território da Paz´, em dezembro do ano passado, foram suficientes para reduzir os crimes de morte ali.
Em 2008, 27 pessoas foram assassinadas naquele bairro. Em 2009, este número saltou para 47, um aumento da ordem de 74 por cento. Para 2010 as perspectivas são ainda mais sombrias, pois nos oito primeiros meses já são 49 pessoas assassinadas, superando 2009.
Somando os três anos, já são, nada menos, que 123 pessoas fuziladas somente em um único bairro de Fortaleza.
Na tentativa de impedir mais crimes, o Comando do Policiamento da Capital (CPC) tem determinado a realização de constantes operações de desarmamento e blitze com o apoio de outros órgãos como a Guarda Municipal de Fortaleza, o Juizado da Infância e da Adolescência, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e o Departamento Estadual de Trânsito (Detran), além da Polícia Civil.
As operações seguem os mesmos moldes daquelas que são realizadas, periodicamente, em áreas onde há registros de prostituição infantil e tráfico de seres humanos, como a Praia de Iracema. Estabelecimentos comerciais são fechados após a constatação de que estavam funcionando de forma irregular.
Especiais
Nessas operações, o CPC tem mobilizado as chamadas ´forças especiais´ da corporação para reforçar as abordagens da 4ª Cia/6ºBPM. Assim, são mobilizadas patrulhas do Batalhão de Polícia de Choque (BpChoque) e motos da Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas (Raio).
INÍCIO
Formação de milícias gerou vários casos de execução
Segundo dados da Polícia Civil, a matança de pessoas no Bom Jardim teve início em 2008 com uma ´guerra´ travada entre grupos que faziam a segurança paralela para a comunidade. Travestidos de vigias noturnos, eles passaram a prestar seus ´serviços´ aos moradores e comerciantes do lugar. Em troca de dinheiro, afastavam os marginais do bairro ou eliminava-os.
Contudo, pela disputa de territórios, os vigilantes passaram a formar milícias e os grupos começaram a se enfrentar nas ruas do bairro, protagonizando tiroteios e mortes. Vários inquéritos a respeito foram instaurados no 32º DP, sob a presidência do delegado Jacob Stevesson Mendes. Alguns acusados foram indiciados mas acabaram mortos, posteriormente, assim como testemunhas importantes eliminadas ou sumiram.
Fonte: Diário do Nordeste - 30/08/2010

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