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Notícias O sofrimento dos PMs doentes
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ACSMCESubmetidos à rotina extenuante, muitos são os policiais que se entregam a doenças, como a depressão

"O soldado que venceu a batalha". Esse é o título provisório do livro autobiográfico em fase de elaboração do cabo Roberto Lourenço Albano de Lima, 42. Escrito à mão, com letra nervosa e alternando as cores das tintas, para enfatizar passagens da Bíblia, o militar conta como se tornou um viciado crônico da cocaína, espancou e extorquiu viciados, destruiu o casamento e acabou no fundo do poço. Cabo Albano - como é mais conhecido, inclusive pelos colegas de farda integrantes do Pelotão de Motos - desceu do "céu imaginário", onde desfrutava de poder, dinheiro e respeito, para um "inferno real".

Nesse âmbito, viveu o tormento das alucinações, auditivas e visuais. De forte, revelou-se fraco, medroso e desamparado. Já não era mais o homem temido dos arredores das bocas-de-fumo, onde tomava as drogas dos compradores de classe média que se aventuravam pelos becos e ruas do Lagamar, Tancredo Neves e adjacências.

Nessa etapa da vida, já não se colocava por trás de uma armadura medieval retardatária, com capacete, colete à prova de bala e botas longas, como de um cavaleiro renascentista. Há 18 anos, presta serviço para a Polícia Militar do Ceará (PMCE).

Poderia ser uma história que deixa de surpreender, tal a repetição de casos de policiais que se envolvem com as drogas e interrompem suas carreiras à medida que a loucura avança. Mas é exatamente no escândalo recorrente no qual a história pessoal do cabo se transforma, com policiais sequelados pelo narcotráfico e pelas doenças mentais, que se encontram exemplos de casos que ficam relegados ao desprezo e empurrados para sofrimentos pessoal e familiar.

Comparativo

A desatenção psicológica e a falta de assistência social a policiais militares em situação de desequilíbrio mental somente vêm aumentando a cada ano. De acordo com dados do Centro Biopsicossocial da Polícia Militar do Ceará (CBS/PMCE), no período de janeiro a julho do ano passado, foram registrados 279 atendimentos psicológicos. Em 2010, nos seis primeiros meses, o número caiu para 200. No entanto, a disparidade maior é com relação à assistência social. Se em 2009, em igual período, o órgão prestou 700 atendimentos, neste ano, somou somente 243.

A tenente e psicóloga do CBS/PMCE, Danielle de Sales Pinheiro, reconhece que é grande a demanda de policiais doentes de pânico, alcoolismo, dependência de drogas e da síndrome de Bornout, também conhecida como enfermidade do esgotamento profissional, que exaure mental e fisicamente, levando a pessoa a um acentuado processo de depressão.

"Muitos problemas são acompanhados por nosso setor. Temos atuado muito efetivamente com um grupo de cinco psicólogos e seis assistentes sociais", garante Danielle de Sales Pinheiro.

Alguns conflitos que chegam ao centro conseguem solução, porque a raiz de muitos problemas acaba sendo financeira, como dívidas com cartões e mau gerenciamento doméstico. Por meio de arranjos simples - às vezes com um suporte financeiro extra da Secretaria da Fazenda -, tem sido possível desde a compra de óculos até ensinar como melhor administrar o orçamento familiar.

Com a ajuda de uma economista doméstica, muitas tensões acabam sendo aliviadas, como informa a psicóloga e militar. Contudo, as situações mais críticas ocorrem quando a doença mental se instala de forma avassaladora na alma do PM. Aí, há um histórico de menosprezo, abandono e negligência com a saúde de quem, como afirma o cabo Albano, anda armado e tem o poder de decidir se tira ou não a vida de uma pessoa.

A tenente Danielle lembra que, além de não se contar com um médico psiquiatra no Hospital da Polícia Militar, os acompanhamentos também têm sido negados nos Centros de Assistência Psicossocial (Caps), mantidos pela Prefeitura de Fortaleza. A recusa, conforme salienta, decorre do desconforto da presença de policiais armados e do estado de inquietação dos pacientes, que acabam sendo motivos de intolerância dos funcionários dos Caps.

Mesmo no Presídio Militar, funcionando na sede do 5º Batalhão da Polícia Militar, é precária a atenção com os PMs que se encontram recolhidos ao xadrez por deserção, assassinatos e outros crimes. O acompanhamento se faz por psicólogos, e muitos desses não têm como prescrever uma medicação que possa atenuar uma depressão e evitar o agravamento de um transtorno psíquico, tal como paranoias, síndromes de abstinência, psicoses e delírios.

Ressocialização

A psicóloga Glória Rocha é uma das integrantes da equipe que acompanha presos militares. Na sua avaliação, muito se tem feito na questão da ressocialização, recuperação da autoestima, mas há um limite para a intervenção do profissional da Psicologia.

"Dependência de drogas e alcoolismo são situações que vêm associadas a outros conflitos. Não são raros os que estão acometidos dessas doenças e não contam com a terapia adequada", ressalta.

Já que faltam psiquiatras no Hospital da Polícia Militar e os Caps recusam-se a consultar os doentes, por que, então, eles não são encaminhados ao Hospital Mental de Messejana? Se o questionamento é óbvio, a resposta dada pela diretora clínica do Hospital de Messejana, Ana Jeceline Pedrosa Tavares é: "O atendimento deve ser nos Caps, como preconiza o Sistema Único de Saúde (SUS)".

LINGUAGEM DAS RUAS

Policial quer ser modelo de conversão

"Certa vez, estava eu com várias pessoas na madrugada. Então, recebi o convite para ir até à casa de um deles. Nisso, não sei como apareceu, um rapaz em uma bicicleta e disse para que eu não fosse, porque eles estavam combinando tomar minha arma". O trecho é do livro "O soldado que venceu a batalha", do cabo Roberto Lourenço Albano de Lima, que possui a linguagem das ruas e diversas citações da Bíblia. Para o policial militar, esse foi um dos contatos que teve com "anjos disfarçados".

Cabo Albano admite suas limitações como escritor, mas acredita que as reflexões escritas diariamente, num intervalo de uma rotina ou outra na casa onde está vivendo, vão muito além da catarse. Ele acredita que seu modelo de conversão deverá inspirar outros policiais que ainda estão envolvidos com o narcotráfico e a dissolução de seus lares.

O militar pretende contar como tem sido sua passagem na Polícia, desde os tempos em que se tornou um herói para as crianças da favela onde morava, na Aerolândia, até converter-se num homem perigoso.

"Estava totalmente dependente da cocaína. O que um viciado levava para consumir num dia, eu cheirava em uma hora", lembra. Também conta os dias de bebedeira e orgia. Quase todos antecediam manhãs de deserções, faltando ao serviço no quartel militar.

Cabo Albano conta que nunca foi procurado pelo serviço social. "Eles sabiam que eu estava faltando ao trabalho. Em vez de vir até a minha casa para saber o que estava ocorrendo comigo, eu era levado ao presídio. Assim que era solto, corria para a favela com o objetivo de cheirar mais cocaína", lembra.

Na casa onde tem passado pela desintoxicação, converteu-se à igreja evangélica. Na verdade, ressalta que houve tentativas anteriores de pertencer a uma congregação religiosa, levado pela mulher, que também é evangélica, mas essa foi a primeira vez que "aceitei, de verdade, Jesus Cristo no meu coração", garante.

Há dois meses internado, ele conta que já passou por mudanças radicais na sua vida. A mais forte, na sua opinião, foi ser capaz de dizer "eu te amo" a sua mulher. Frase, como salienta, impensável nos seus tempos de dependência.

Marcus Peixoto
Repórter

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Atendimento ambulatorial é importante

Não há como divergir que o atendimento ambulatorial deve ser feito pelos Centros de Assistência Psicossocial (Caps). De acordo com as regras do Sistema Único de Saúde (SUS), são essas unidades que devem prestar o atendimento psiquiátrico para os cidadãos. Desse modo, recorrer ao Hospital de Messejana não é pertinente. Isso porque não contamos com ambulatório, A nossa emergência pode atendê-los, mas quando há um enquadramento no perfil do hospital. A questão do acompanhamento do policial militar deve ser avaliada desde o exame de admissão dos concursados. É importante notar se esse candidato tem tendências de depressão, ansiedade, psicose ou se apresenta sinais perversos. Quando é um caso de emergência, o Hospital de Messejana recebe a demanda, mas, no caso do policial militar, preocupa-nos o aparato das escoltas. Vale a pena lembrar que muitos pacientes que também aguardam atendimento detêm transtornos de paranoia, sendo que alguns desses estão ligados à farda. A questão vital é que falta psiquiatra em todos os setores e não apenas no acompanhamento dos policiais. Sabemos o quanto é impactante para uma reação ao problema dos pacientes com dependência química, mas isso é pensado como algo que deve envolver toda a sociedade. Hoje, estamos preocupados não apenas com a capacitação, mas com o engajamento das pessoas com a questão da saúde mental. Eis porque o hospital vem recebendo estudantes que têm um primeiro contato com o atendimento e a atenção dada àqueles com algum sofrimento mental. Temos tratado policiais militares com dependência química por meio do Projeto Elo de Vida. Porém, muitos casos são típicos da atenção primária.

Ana Jeceline Pedrosa
Médica psiquiátrica

Diário do Nordeste - 07/09/2010

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